Walter Zanini e Hans Ulrich Obrist

Walter Zanini nasceu em 1925, na cidade de São Paulo. Ele se formou na Universidade de Paris VII em 1956 e em 1961 formou-se como doutor na mesma universidade. Conhecido por ter sido curador do MAC de São Paulo, de 1963 a 1978, e também das Bienais de 1981 e 1983.

Hans Ulrich Obrist nasceu na Suiça, Zurique, em 1968 e escreveu e seu livro Entrevistas foi publicado em 2009 no Brasil. Iniciou sua carreira como curador no final dos anos 80 e, segundo a apresentação de seu livro, já então tinha a vontade de: “utilizar as experiências dos artistas dos anos 1960 e 1970, que haviam ampliado o campo das artes plásticas para criar um campo expandido pelo qual a arte transitasse – um novo espaço de exposição, um novo espaço de troca, um novo processo de criação.” (p. 5) Portanto, para caminhar até Walter Zanini havia uma lógica conceitual de seu próprio trabalho. Zanini foi um exemplo na curadoria brasileira e internacional para criação de espaços com novas propostas.

A seguir uma conversa entre dois textos: Novo Comportamento do Museu de Arte Contemporânea escrito pelo próprio Zanini e a entrevista de Obrist com o curador.

A preocupação de Zanini com a função da instituição Museu é evidente. Sem surpresas, ele foi citado algumas vezes no primeiro Simpósio Outras Utopias[1], na fala de Glória Ferreira e Christine Melo, pois os temas que ele costumava abordar em sua época se estendem para os dias de hoje. Em seu texto: “O museu de arte moderna caracterizou-se de certo modo até a data recente como um órgão crítico/organizador de natureza retrospectiva.” (p. 59) O pensamento de um museu participante do ato da obra de arte começa a surgir, diferentemente da concepção de museu receptáculo, um museu com novos objetivos: “que se democratizasse através de uma abertura capaz de atender menos formalmente o artista e que ao mesmo tempo fosse mais dúctil em seus relacionamentos culturais com o público, sempre excessivamente dirigido e condicionado a uma política cultural.” (p. 60)

Zanini escreve que por conta das mudanças nos recursos de comunicação na década de 70 o museu sofre uma abertura maior, e começa a evidenciar a separação de obras de acervo e obras de novas mídias. “Origina-se uma modificação fundamental de sua conotação com o artista e o público, ativados em seu processo de participação dialética” (p. 60) E será nesse contexto dialético que as dificuldades de existência do museu irão se desenvolver.

Uma das experiências mais importantes de Zanini, a Jovem Arte Contemporânea, é relembrada nos dois textos. Primeiro no próprio texto de Zanini “Alterando o regulamento anterior ao transferir a ênfase colocada na obra para o processo e eliminando o princípio da seleção de candidatos, proposto aos participantes um programa de atividades que transformava o próprio museu em centro dessas atividades.” (p. 60-64) E a seguir na entrevista: “Era preciso ter em mente que era um museu universitário-situado no interior da Universidade de São Paulo – e artistas que também estavam dando aulas colaboravam em vários aspectos da atividade da nova instituição. A JAC foi apresentada como um fator de destaque nessa aproximação.” (p.60) Será uma de suas realizações mais importantes, e mais relembradas no contexto da arte, por ser uma atitude política, experimental em um meio institucionalizado.

A questão das instituições reaparece na entrevista quando se discute a respeito das bienais, onde Zanini expressa que a brasileira seguiu por muito tempo o modelo de Veneza, com regras mais estabelecidas, como categorias que dividiam salas por país. Com a ditadura o evento foi boicotado, inclusive internacionalmente. A recuperação política da Bienal, diz Zanini, apenas ocorreu nos anos 80. E Obrist lembra da Documenta-exposição que ocorre na Alemanha – que nunca aderiu a questão das representações nacionais. Zanini concorda, mas lembra que a Bienal sempre trabalhou com uma verba mínima perto da verba da Documenta, e relembra do MAC na Bienal, que sua direção foi contrária também a essa questão das representações.  “Criamos uma equipe de curadores, acabamos com os espaços compartimentados previamente destinados a cada país.” (p. 67)

Essa relação inovadora que Zanini estabelece com as instituições, procurando brechas e lutando para poder atuar de modo diferenciado e experimental denota a sua figura. Uma referência para a curadoria brasileira. Um episódio interessante, que exemplifica o quanto Zanini foi ativo em sua época é a história do artista de Jeff Golyscheff: “Era o ano de 1965. Ele veio ao museu – MAM- com a esposa e nos contou sua história de refugiado sob o governo do Hitler. Os nazistas tinham destruído inteiramente uma exposição dele em Berlim, em 1933. Ele então resolveu sumir do mundo artístico. Mais de trinta anos depois, completamente esquecido, ele quis voltar novamente.” (p. 56) Assim Zanini o recebe de braços abertos percebendo nessa situação algo de extrema importância, um nome importante do dadaísmo que parecia ter morrido a muito tempo atrás.

Camilla Loreta

OBRIST, Hans Ulrich. Walter Zanini. In: Entrevistas: vol. 1. Trad. Diogo Rodrigues… et al. Rio de Janeiro: Cobogó; Belo Horizonte: Inhotim, 2009. (também disponível em: OBRIST, Hans Ulrich. Uma breve história da curadoria. Trad. Ana Resende. São Paulo: BEĨ, 2010)

ZANINI, Walter. Novo comportamento do Museu de Arte Contemporânea. In: RAMOS, Alexandre Dias (org.). Sobre o ofício do curador. Porto Alegre: Zouk, 2010.


[1] Realizado pela Pontifícia Universidade Católica, no TUCA Arena em 22/10/2010.

Sobre labratobranco

a equipe [lab]ratobranco é composta por Ana Luiza Maccari, Camilla Loreta, Cida Katsurayama, Giovanna Bragaglia, Lizia M. Y. Barretto, Marina Mantoan, Paulo Peresin, Sonia Vaz, sob orientação de Cauê Alves.
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s