conversa com o Beco da Arte

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Dia 02 de setembro, o [lab]ratobranco recebeu Leticia Baldano, Gustavo Ferro, e Jaime Lauriano – integrantes do Beco da Arte –, para saber mais sobre suas histórias, empreendimentos e preocupações no mundo da arte.

O Beco da Arte surgiu em 2007, quando Gustavo Ferro dividia a casa com um colega do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, o Ronan Cliquet. Na época, estavam no segundo semestre da faculdade e começavam a conhecer o meio das artes quando decidiram usar o espaço que tinham, a própria casa, para expor seus trabalhos. Nascia ali o Beco da Arte, cujo nome foi inspirado em sua própria localização, uma vila. No decorrer da segunda exposição o coletivo foi convidado a ocupar o porão da casa de seu vizinho, Efraim. Com o pé direito baixo e precisando de uma reforma, de acordo com Gustavo Ferro, o espaço estava longe de ser um cubo branco.

No Beco da Arte o que importa é o fazer junto, a troca informação e relação com o espaço, como a exposição Noves_Fora, em 2009, que contou com a participação dos artistas Thiago Hattnher, Marcelo Gandhi, Denise A, Inverness, Nei Franclin, Sergio Bonilha & Luciana Ohira. A curadoria foi desenvolvida em conjunto e todas as obras apresentadas, produzidas no espaço e especificamente para aquele espaço.

Os integrantes aprenderam “na raça” sobre a complexidade de montar uma exposição e gerir um espaço de arte. Realizaram exposições coletivas, palestras, editais – onde também foram, algumas vezes, o júri –, publicações e até mesmo a reforma no porão, feita por eles mesmos, com o dinheiro do próprio bolso. As publicações foram pensadas inicialmente como um modo de espalhar e fazer circular suas ideias, mas elas são também lugares de experimentações, assim como o porão. Tudo era feito no espaço – design gráfico, impressão, costura, montagem, embalagem –, nada de serviço terceirizado. Os materiais são geralmente simples e viáveis, como papel craft e impressão serigráfica. Um dos projetos da gráfica, e mais tarde editora, foi o Percursos Narrativos, no qual dois artistas de fora do Beco eram convidados para apresentar narrativas dentro das artes plásticas. Para a primeira edição, foram convidados Fábio Morais e Rafael RG.

Sobre os editais, os integrantes contam como foi complicado eles mesmo fazerem uma seleção e que, num segundo edital, optaram por deixar a escolha para o público. Para refletir mais sobre o assunto chamaram os críticos e curadores Cauê Alves, Thais Rivitti, Marcos Harum e Cildo Oliveira para debater e pensar junto a eles e ao público. No final, o Beco concluiu que esse negócio de seleção não era, afinal, democrático como achavam que era e como queriam que fosse.

“Descobrimos que a partir do momento em que propomos algo, este algo já não pode ser tão democrático, porque delimitamos certas coisas. (…) Não podia ter o nome, não podia ser maior do que x por x… a gente colocou parâmetros. Quando se coloca parâmetros a democracia é limitada. A gente delimita o que se pode fazer, o que as pessoas podem fazer. Então é um senso de liberdade um pouco ilusório”, conclui Jaime.

Lá, as aberturas são sempre uma festa com direito a “carrinho de quesadilla” – típica comida mexicana -, trabalho de Silvio Borges, e publicações à venda (por um preço sempre acessível). Aliás, esse aspecto relacional esteve também presente na vinda do coletivo austríaco Mahony. Chamada Kartoffelessen, a palestra performática consistia em um “jantar de batatas” preparado e servido para o público na hora, quentinho.

Ao longo dos três anos de existência em espaço físico, o Beco foi construindo uma rede de interlocução com outros espaços e coletivos, da qual se tornou uma espécie de catalisador. Já foram convidados para a exposição Ocupação, na Casa Contemporânea, além de terem habitado o espaço durante 20 dias, numa espécie de residência, o que gerou um texto para a revista Tatuí – pode ser lido no blog <http://quandonaodormimos.wordpress.com/>. Em agosto desse ano, participaram do projeto A Casa Recebe, na Casa Tomada.

Desde meados de Agosto de 2010, o Beco da Arte não se encontra mais no porão da casinha na Vila Mariana, devido meramente a motivos financeiros. O espaço, que antes era cedido pelo vizinho, acabou sendo alugado para outra pessoa. Mesmo assim, o Beco é muito grato pela boa vontade de Efrain e também pela sua curiosidade, sempre aberto à novas experiências. Gustavo conta que, nesse ponto, a relação com o dono do espaço era uma troca, já que havia a vontade de conhecer, de estar em contato com tudo que era feito. A nova situação fez com que eles questionassem qual era a importância desse espaço físico realmente.

Ter um espaço físico é um problema prático. “Onde habitar uma biblioteca?”, por exemplo. Mas, conforme Jaime diz, talvez o lugar do Beco seja muito mais algo simbólico do que físico: “O espaço da referência, para as pessoas saberem que ali existiu o Beco da Arte. Mas ele cumpriu uma função que foi mostrar que dá para fazer sim”.

Avaliando a importância do Beco enquanto espaço experimental, Jaime aponta para a característica desse tipo de espaço ser rotativo ou reciclável, pois precisa de novas mentes a todo instante. Ele relembra uma fala de Rafael Campos, que diz há uma hora em que o espaço precisa se institucionalizar. Quando isso acontece, é preciso que pessoas novas participem para que haja uma renovação. “A gente não consegue experimentar para o resto da vida com o mesmo grupo. Quando não tem influências de fora, o grupo começa a se ensimesmar, a ficar com um discurso muito igual”, conclui. É importante sublinhar que não é possível ser experimental a vida inteira. Tem um momento em que as coisas esgotam. Também não se trata de uma atitude de oposição às instituições, mas uma alternativa. Eles torcem para que surjam novas iniciativas.

Para terminar, perguntamos a cada um dos integrantes, ali presentes, o que seria um espaço experimental:

JAIME: “A experiência vem a partir do momento que você tem um problema para resolver.” A realização de uma exposição, por exemplo, em que é preciso pensar como administrar o dinheiro, como captá-lo, se preciso, e aprender a partir disso.

GUSTAVO: considera que o experimental está associado a trabalhar com o risco, com a descoberta. “Uma coisa de dar a cara no sentido de estar explorando uma pesquisa, uma possibilidade de circulação de alguma coisa, de uma ideia de algum modo”.

LETÍCIA: diz que tem a ver com lidar com a circunstância de ser independente para alem dos limites da esfera da arte. “Porque às vezes a gente acha que é uma coisa muito grandiosa, mas que a gente consegue trazer para nós e fazer acontecer”.

Citando Benjamin, Jaime lembra que a experiência não é nada se não é comunicada, e esse é um problema desse momento sintomático no Brasil de alargamento da produção ao mesmo tempo e de afunilamento do pensamento crítico e reflexivo. Mais um motivo para todos nós continuarmos pensando juntos.

Beco da Arte: http://becodaarte.blogspot.com/

texto por Lizia Ymanaka Barretto e Giovanna Bragaglia

para ler a conversa inteira com o Beco da Arte, clique aqui

Sobre labratobranco

a equipe [lab]ratobranco é composta por Ana Luiza Maccari, Camilla Loreta, Cida Katsurayama, Giovanna Bragaglia, Lizia M. Y. Barretto, Marina Mantoan, Paulo Peresin, Sonia Vaz, sob orientação de Cauê Alves.
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