O Ateliê Aberto Produções Contemporâneas é, como se define, “um organismo independente que vive da criação, formação, produção, difusão e investigação em arte, design e cultura contemporânea.” O Ateliê, localizado em Campinas, desenvolve diversos projetos e possui espaço expositivo, biblioteca e um centro de produção gráfica e audiovisual. O [lab]ratobranco entrevistou o Ateliê para conhecer um pouco mais suas ideias e projetos.
[lab]ratobranco: Conte um pouco da história e dos desafios do Ateliê.
Ateliê Aberto: O Ateliê Aberto, que este ano completou 12 anos, é um espaço referência na cidade de Campinas, reconhecido pela consistência de sua programação, seu compromisso com processos experimentais, idealização de projetos inovadores e trabalho de cooperação que estabelece com diversos atores, movimentando a cena cultural na cidade, envolvendo os artistas locais e trazendo artistas de outras cidades e estados do Brasil. Desde 2000, foram realizadas 44 exposições no espaço do Ateliê. Participamos de cerca de 33 projetos externos, ora como idealizador e produtor, ora como coletivo de artistas. Envolvemos nos projetos internos e externos mais de 330 artistas.
Hoje, buscamos estabelecer-nos como organismo cultural independente e também como idealizador e produtor de projetos culturais externos, viabilizados inclusive através das Leis de Incentivo Fiscal. Em 2010, demos um passo importante ao abrir as portas de nossa sede própria, ampliando o espaço expositivo e biblioteca, criando uma nova área de convívio, um espaço garagem – multiuso (pensado para conversas abertas, exposições e residências artísticas), o cine-caverninha (sala de projeções), um agradável jardim e a fachada do espaço, que hospeda o projeto RUA [Ruídos Urbanos Amplificados].
Dentro desta busca, um dos principais objetivos é intensificar o uso do espaço e ampliar a circulação do público: incluir na programação projetos educativos, acolhendo artistas e os outros profissionais que desenvolvem cursos e/ou workshops; promover nossa biblioteca e seus títulos através de nosso site; desenvolver um programa de estágio trazendo para nosso espaço alunos da graduação dos cursos de Artes Visuais, Comunicação Social, Arquitetura e Administração (através de convênio já estabelecido entre o Ateliê Aberto e instituições de ensino superior), colocando-o em contato com o meio profissional, contribuindo para sua formação; viabilizar um programa de residências artísticas; entender os processos da autogestão; viabilizar processos sustentáveis em suas realizações.
É coordenado por Maira Endo e Samantha Moreira.
[lab]ratobranco: O que significa para você, no Brasil, ser independente? Quais são as dificuldades?
AA.: Ser independente significa, em última instância, ter autonomia sobre os projetos que idealiza e realiza. Ou seja, os projetos que idealizamos e realizamos em nosso espaço são de autoria da equipe de trabalho do Ateliê Aberto e viabilizados pelas sócias e também através de parcerias com outras instituições e empresas que não tem autonomia sobre o conteúdo e forma do projeto.
[lab]ratobranco: Como você vê o Ateliê Aberto dentro do circuito das artes?
AA.: O Ateliê Aberto é um espaço com vocação para acolher processos experimentais de criação, as manifestações artísticas da vanguarda, a arte tecnológica e interdisciplinar. Não tem o mesmo papel do museu, da galeria, do espaço dentro da universidade ou de um espaço cultural de um banco. Por ser justamente independente, torna-se mais orgânico, mais simples, mais natural, mais espontâneo, mais informal.
Tem hoje, papel fundamental no intercâmbio, produção e discussão de arte e cultura contemporânea em Campinas, se estendendo para o estado de São Paulo e Brasil – por desenvolver e realizar projetos tanto em sua sede, como em outros espaços e cidades.
Também gera serviços a partir dos projetos realizados dentro e fora do espaço
[lab]ratobranco: Fale um pouco das atividades realizadas pelo Ateliê Aberto.
AA.: O Ateliê Aberto realiza em seu espaço exposições, residências artísticas, workshops, orientação para artistas visuais, apresentações audiovisuais, pequenas mostras audiovisuais. A fachada do Ateliê abriga o Projeto RUA [ruídos urbanos amplificados]. Nossa biblioteca é especializada em criação contemporânea e é aberta ao público para pesquisa.
O Ateliê também idealiza e produz projetos externos, viabilizados através de convites, editais, patrocínios e leis de incentivo fiscal.
[lab]ratobranco: Qual ou quais coletivos e/ou organizações te inspiraram?
AA.: Torreão (POA) e o instinto Agora Capacete (RJ) – e na sua continuidade o Capacete (RJ). O início de A Gentil Carioca (RJ). Também instintos, Rés do Chão (RJ) e Alpendre (Fortaleza). Organizações como O Coro Coletivo e Canal Contemporâneo
[lab]ratobranco: Você reconhece outros coletivos/espaços com propostas semelhantes à sua?
AA.: Sim. O Ateliê 397 (SP), Branco do Olho (RE), Barracão Maravilha (RJ), Arquipélago (SC), Ateliê Subterrânea (RS), Casa da Xiclet (SP), GIA (BA), Casa Tomada (SP), Beco da Arte (SP). O Ateliê 397 acaba de lançar uma publicação, chamada “Espaços Independentes”, que mapeia os espaços independentes no Brasil. Acredito que no próprio Ateliê 397 seja possível adquirir um volume.
Vale lembrar também que de todos os espaços mapeados nesta publicação, o Ateliê Aberto é o mais antigo.
[lab]ratobranco: Como você percebe a necessidade da criação de grupos de artistas?
AA.: Os artistas, como profissionais autônomos, vêm buscando soluções para a questão da gestão de seus “negócios”. Muitos artistas parecem não conseguir enquadrar-se na solução convencional, a gestão por galeria ou agente cultural. Os grupos ou coletivos de artistas apontam para um caminho alternativo, onde forças se juntam em torno de objetivos semelhantes, simplificando os processos e protegendo os interesses do artista
[lab]ratobranco: Você vê a criação desses coletivos/espaços como uma tendência na produção artística brasileira?
AA.: Sim, o mapeamento e os depoimentos presentes na publicação “Espaços Independentes” comprova esta tendência e, acima de tudo, esta necessidade da classe artística.
[lab]ratobranco: Há algum tipo de apoio, patrocínio, parceria, subsídio? Se sim, quais? Ou com que recursos o espaço desenvolve suas ações?
AA.: Hoje, a maioria das ações internas – sua programação – são geradas por subsídios do próprio espaço, como oficinas, workshops, serviços de expografia e montagem, produção etc. Existem parceiros permanentes, como a rede Vitória de hotéis que custeia a estadia dos artistas que participam de nossa agenda. Também alguns restaurantes e bares são parceiros. Nesse ano de 2010, iniciamos uma série de conversas com empresas a fim de estabelecermos termos de cooperação, ainda em estudo. Além disso, em projetos específicos tivemos parceiros como Aliança Francesa, Porto Seguro, Centro Cultural Banco do Brasil, EPTV Campinas, entre outros.
[lab]ratobranco: Como você definiria “ser experimental”?
AA.: Antes de qualquer coisa, para ser experimental é preciso ter autonomia e uma programação com conteúdo. Não estar fechado para novas experiências, manifestações e tendências, assim como para ajustes e modificações que se percebam necessárias ou que simplesmente surjam no decorrer dos processos de criação, montagem e exibição. Buscar visões inovadoras para gestão privada e pública, ter parceiros e profissionais ligados aos projetos, em diferentes formatos e campos de ação.
O Ateliê Aberto fica na Rua Major Sólon, 911 – Cambuí – Campinas, SP.
para mais informações…
www.atelieaberto.art.br | www.flickr.com/photos/atelieaberto
contato:
55 (19) 3251-7937 | contato@atelieaberto.art.br
entrevista realizada por Paulo Peresin